Notícia
Dedo nas feridas! Inspirada em obra, Beija-Flor tem enredo de crítica social
Data: 03/08/2017

A Beija-Flor de Nilópolis encerrou na tarde deste domingo, 30, a série das escolhas de enredo para o Carnaval do Grupo Especial de 2018. E a ideia é expôr as desigualdades sociais e as mazelas nossas de cada dia, sem deixar de tornar claro o descaso dos governantes ao longo de décadas. “Monstro é aquele que não sabe amar” será assinado pela comissão de carnaval da Beija-Flor, capitaneada por Laíla e Cid Carvalho.

O enredo é uma inspiração na obra praticamente bicentenária “Frankstein, ou o moderno Prometeu”, de 1818.

Confira a sinopse

MONSTRO É AQUELE QUE NÃO SABE AMAR!
Os Filhos Abandonados da Pátria que os Pariu.

A ficção do monstro do Dr. Frankenstein nos coloca frente a frente à nossa capacidade de
repudiar o que é estranho e diferente, de negar amor ao que não compreendemos.
O ser criado em laboratório a partir de pedaços de gente costurados rusticamente, e da
ausência de ética e de limites, não foi reconhecido como um semelhante porque possuía
aparência anormal e feia e, acabou sendo excluído, repudiado e renegado pelo próprio pai.
A estranha criatura, abandonada, sozinha, incompreendida e entregue a própria sorte, se
transformou em anjo caído, revoltado pela falta de amor.

Mas, quem é o verdadeiro monstro nessa estória? A criatura de aparência repugnante, ou o
criador, com seu egoísmo, seu orgulho, sua arrogância e seu coração corrompido?
Essa obra vai completar 200 anos, mas tem muito a nos dizer das diversas mazelas que
atualmente corroem a integridade moral e espiritual de uma sociedade onde a desigualdade
se alimenta do descaso, formando uma geração dominada pelo caos, vitimada pelo abandono
e que vive a mercê de seres humanos bestiais que menosprezam tudo e a todos que lhes
parecem inadequados e fora dos padrões estabelecidos.

O monstro do Dr. Frankenstein é a nossa realidade invertida, é a nossa culpa escancarada e
jogada em nossas caras, mas que da qual fugimos e negamos qualquer responsabilidade. A
criatura é o nosso espelho da vida refletindo nossas falhas mais gritantes, nossa falta de amor
com o que nos cerca e com o próximo, e o nosso desrespeito às diferenças.

Somos parte de um sistema doentio, gerador de criaturas que falam línguas diferentes e
aparentemente indecifráveis para os governantes, e que perambulam incompreendidas e
esquecidas pelos becos, ruas e vielas dessa selva de pedra que um dia já foi o paraíso.
Mas, o sonho de uma criança ainda é pintar o futuro em folhas brancas da imaginação e traçar
o mundo inteiro na palma da própria mão. Porém o que vemos são crianças abandonadas
pelos pais, longe das escolas, vendendo balas nos semáforos ou se transformando em pivetes
e disparando balas de armas que cospem fogo e dor. Por sua vez, os filhos jogam os pais idosos
em asilos, feito fardos pesados demais, numa espécie de reflexo invertido.

É a carência de amor escancarada pela ausência de opção ou pela falta de pão, levando irmão
a matar irmão. São pedaços de família, soltos, desapegados, sem ligação. São retalhos de uma
sociedade refém de uma violência cruel que corrói a nossa dignidade e espalha o medo que
nos devora a alma em cenas trágicas que passam diante de nossos olhos como um filme de
terror, retratando vidas que se perdem num instalar de dedos em cenários reais e
angustiantes. São as casas gradeadas, feito fortalezas de proteção, onde temos a sensação que
nós é que estamos na prisão, numa banalização do mal, do sofrimento alheio e da própria vida
humana, que transforma a luta diária, em luto constante.

São os Cavaleiros do Apocalipse político, camuflados com ternos, gravatas e hipocrisia,
cavalgando no lombo da ambição e espalhando a falta de esperança. São as filas, as falhas e
falcatruas alimentando saúvas e adoecendo a saúde; são zumbidos perdidos, sem direção,
assustando a população e matando o futuro na nação. É a paz escondida na tristeza de cada
olhar, na saudade doída dos que se foram, na fatalidade do silêncio dos que já não podem
chorar. É o refugiado da seca que ainda não encontrou a terra prometida; é o brasileiro
acuado, sem ter para onde fugir. Mas, na delação do “boca de sabão”, certo e errado pode ser
apenas uma questão de ocasião.
Será que há salvação?

Será que no final do túnel haverá luz?
Ou será que carregaremos eternamente essa cruz?
Sentado na escadaria, um pedinte estende as mãos implorando esmolas, disputando com
terços e santinhos a atenção de quem passa para se ajoelhar diante do altar de ouro; numa
encruzilhada adiante, aproveitadores da boa fé despacham oferendas sem axé que servem
para aliviar a fome e a sede do morador de rua; enquanto falsos profetas, em templos
colossais, cobram dízimos celestiais, perseguem crenças diferentes, sufocam manifestações
culturais e fomentam uma espécie de “Guerra Santa”: o sagrado versus o profano, a batucada
proibida, a roda de samba coibida, a bebida no boteco; tudo é coisa do “coisa ruim”!
Porém, tudo que se constrói ou se destrói, se começa pela base, porque se não se fortalece a
base, toda a edificação estará fadada ao desmoronamento. E a base, a estrutura de uma
sociedade é a cultura. É preciso voltarmos às nossas raízes e nos reinventarmos. E se
reinventar não significa mudar a essência ou renegar as origens. Reinventar tem um quê de
renascimento, de tornar a ser criança, de redescobrir o poder de amar. Somente o amor e a
valorização da cultura impedirão que os monstros da nossa sociedade continuem surgindo, se
multiplicando e ameaçando o que temos de mais autêntico.

Cabe a nós sambistas, historicamente marginalizados e excluídos, sempre olhados com
estranheza e preconceitos, perseguidos pela cor de nossas peles, pelo colorido de nossas
roupas, pela nossa fé ancestral e pela nossa batucada, o alerta, a resistência e o protesto.
Algumas vezes nos negaram a alma, outras tantas nos deram uma alma demoníaca, mas nunca
conseguiram nos calar, silenciar as nossas vozes e os nossos tambores, porque somos das ruas,
das praças, dos botecos, somos malandros boêmios e carregamos na alma a alegria que
debocha das dificuldades, mas, se for o caso, afogamos as tristezas com uma cerveja bem
gelada.

É chegada a hora de juntarmos os retalhos das nossas consciências que deixamos no baú
empoeirado do nosso comodismo e costurarmos as fantasias dos abandonados e dos
excluídos. Nesse cortejo popular, os verdadeiros monstros da nossa sociedade desfilarão sem
máscaras para serem reconhecidos e malhados na quarta-feira de cinzas!
Que a Maria, a nossa Pietà, com seu filho nos braços e a lata d’água na cabeça, seja o retrato
da luta de todos que apenas desejam ser amados e respeitados.

Que as ruas voltem a ser o grande tabuleiro da pluralidade da nossa gente, onde as peças
dançarão ao som de uma batucada democrática. Que o nosso “rei” que é Momo, que é da
folia, que é do povo, junte realeza e “peões”, derrube a “torre” da intolerância e dê um xeque-
mate na tristeza. E assim, a Escola de samba e a comunidade, ali costuradas pelo amor a nossa
cultura, se tornarão um só corpo novamente e o samba triunfará mais vivo do que nunca.
Que nesse arrastão de alegria, as drags e meretrizes encontrem um amor de carnaval; o velho
arlequim nunca desista de beijar a colombina; o malandro continue caindo de paixão pela
sedutora cabrocha e o pierrot, levante a cabeça, dê a volta por cima e, dance apaixonado com
a passista formosa. Porque o samba é o palco mais democrático da nossa cultura popular e
une irmãos de todos os cantos e bandeiras, festejando as diferenças e celebrando a paz sob
um céu azul e branco.

Mas, se ainda assim você nos descrimina e não entende o nosso jeito de ser feliz, não nos leve
a mal, o monstro é você!
Largue o nosso carnaval!
Afinal, monstro é aquele que não sabe amar!




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